Vidas Alternativas - O primeiro e único programa GLBT na rádio nacional - Todas as quartas na Rádio Voxx, ás 21 horas (Lisboa:FM 91.6, Porto:FM 90.0)

"Bichas horrorosas e pirosas "
juntam-se publicamente !
Korror!
Por: António Serzedelo 


"Pareceu-me ser uma bicha horrorosa e ultra-pirosa, na casa dos 70 anos".
sic.
"...Havia entre os dois uma diferença de idades de cerca de 50 anos..."
sic.
"... Nós  só temos a "macacada" que todos esperávamos..."
sic
excertos de dois mails que recebi   

Eis algumas  apreciações sobre a união de facto  que se realizou, há dias,  em Portugal, com bastante mediatização, na perspectiva de  algumas pessoas dentro da comunidade gay...

Infelizmente, uma visão bastante estigmatizante,  como se  vê pela denominação  de "bicha" dada a um dos intervenientes, depois, muito  classista, pois  a "bicha" é  classificada  ainda de "ultra pirosa", e  finalmente, sexista, porque está "na casa dos 70 anos", quando, para o senso comum  já não deve haver sexo.
Por outras palavras, tal União de Facto  não correspondeu ao modelo   "excelente"  que estava na cabeça de certas pessoas de  uma certa "esquerda" gay. Uma desilusão!

Pelo contrário,  se fossem dois  machos, de 25-30  anos,  musculados, chiques,  vestidos com trajes da moda,  com aspecto totalmente "mainstream", sem brinco, nem rabo de cavalo,  com um discurso de esquerda caviar,  festejar  tal  união, publicamente, já seria aceitável, e  deixava de ser  uma "macacada".

No caso presente, portanto,  os dois homens  deviam ter sido  discretos e recatados, não fazendo qualquer alarde  do seu amor proibido, tal como vem sendo  imposto pelo homófobos, mais ou menos  tolerantes, que dizem que podemos ter relações, desde que não façamos alarde delas.

Graças  a  este caso  temos  a oportunidade  de   flagrar   uma  visão estereotipada da sexualidade gay, prejudicada,  além disso, por  uma percepção (des)humana da realidade. É uma maneira de ver absolutamente condicionada pela  divisão social da nossa sociedade, onde  se olha para a função, e não  para a pessoa,  neste caso um artista. Uma  visão que,  afinal,  inesperadamente, tem adeptos bastantes  entre nós, mas que  tem de ser fortemente criticada .

É uma maneira de ver,
cheia de preconceitos, em  que   expressão "bicha", tão vilipendiada entre nós,  aparece por  contraposição   ao  aspecto (normal)izado  que  se esperaria  destes   homens,  para  só assim, tal  união merecer   ser benzida  pelo censor  gay .

Uma  visão  professoral,  de classe  média,   porque o noivo   em questão é, "ultra piroso",  está fora  da classe  a que pertence  o observador,  ou  daquela  com que  com ele   se identifica,  e, ainda por cima,  é uma  pessoa   "horrorosa", porque é    sexagenário, a entrar na terceira idade. Finalmente,  uma visão  sexista da vida, porque   não parece correcto  para este  entendedor,  que alguém dessa idade, fora da idade da procriação,  procure ainda realizar-se sexualmente.

Pior  ainda,   um amor  com outro  muito  homem  muito mais  jovem, com 50 anos de diferença.   E o mais grave  de tudo, é dize-lo  publicamente, e procurar benção religiosa para tal  amor . No fundo, é  o espelho  da antiga ideia, ainda em vigor na nossa sociedade, de que a
sexualidade está reservada  só para os  homens  até certa idade, devendo os mais velhos evita-la, porque   nessa idade  já  é uma vergonha .
E se fossem heterossexuais, então  achariam  correcto?

Têm ainda  uma visão contraditória do nosso mundo, porque relativamente às paradas gays, os "prides",   já os  entendem  de modo diferentes, pois neste casos, defendem que a  visibilidade é  muito importante, e as carnavaladas que as acompanham são legitimas, positivas, pois, divulgam, e atraem gente.
Entretanto, para   outro dos  críticos  desta União  homo, a mediatização do tal evento, com   uma mistura religiosa , "não só  é grave, como se sente envergonhado com o  espectáculo", sic .

Assim, preferem colar-se  à posição da Igreja Católica, maioritária e homófoba, cujos  ideias condenatórias  deste assunto, divulgam alegremente.  E  desconhecem que noutros países, muitas outras igrejas de várias confissões, praticam  estes actos religiosos, publicamente, ou em privado, há muitos anos, para satisfazer as necessidades  espirituais dos homossexuais  e lésbicas  que tem fé. 
 
Em suma, tais  pensamentos  ajudam a manter o condicionamento hetero  da opinião pública, e a dos gays e lésbicas, em consequência, e vão no mesmo sentido da ideologia  conservadora, demonstrando como estão vivos  nas suas cabecinhas os modelos heterosexistas. Contribuem  deste modo, para a diminuição do espaço alternativo religioso,  demostrando  quanto é ainda  "condenável ", em Portugal,  juntar  homossexualidade e  fé.

Daqui a algum tempo perceberão, como  foram  mesquinhos, e  periféricos, exactamente, na mesma medida em que este país o é.
Por isso, penso que  estamos , cada vez mais  a precisar de gente nova com outra mentalidade, que tenha uma visão alargada, que ultrapasse as tácticas conspiratórias, de caracter imediatista, com o objectivo  exclusivo de  levarem  água, aos seus moinhos clientelistas.

A comunidade glbt portuguesa, em  vagarosa  e difícil construção,   necessita  urgentemente, para arrancar, de visões  estratégicas globais, europeistas, mais  participadas, e não de pensamento único, ou de visões  " pirosas, com mais de setenta anos", viradas para o umbigo,
e/ou  espartilhadas, por pressões  partidárias...

Assim, não vamos lá!

E
parabéns, pela parte que me toca, aos corajosos noivos, Alex e Rodrigo, que enfrentaram  com dignidade, esta tempestade  doméstica, num copo de água! Parabéns!
Hoje,  sabemos  todos que há Uniões de Facto homos, em Portugal!

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António Serzedelo 
anser@netcabo.pt



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Lembramos, que esta não foi a primeira cerimónia homossexual realizada em Portugal com a benção de uma igreja...
Em 8 de janeiro de 2000, na sede da Opus gay, realizou-se a primeira cerimónia religiosa pontificada por um sacerdote católico em que foi dada uma benção, seguida de uma missa, a um casal de lésbicas.  A diferença, é que nessa altura ainda não tinha sido aprovada  em assembleia da república, a Lei que consagra aos homossexuais o direito á União de facto...   

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