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"Bichas horrorosas e pirosas " juntam-se publicamente ! Korror! Por: António Serzedelo
"Pareceu-me ser uma bicha horrorosa e ultra-pirosa, na casa dos 70 anos". sic. "...Havia entre os dois uma diferença de idades de cerca de 50 anos..." sic. "... Nós só temos a "macacada" que todos esperávamos..."sic - excertos de dois mails que recebi
Eis algumas apreciações sobre a união de facto que se realizou, há dias, em Portugal, com bastante mediatização, na perspectiva de algumas pessoas dentro da comunidade gay...
Infelizmente, uma visão bastante estigmatizante, como se vê pela denominação de "bicha" dada a um dos intervenientes, depois, muito classista, pois a "bicha" é classificada ainda de "ultra pirosa", e finalmente, sexista, porque está "na casa dos 70 anos", quando, para o senso comum já não deve haver sexo. Por outras palavras, tal União de Facto não correspondeu ao modelo "excelente" que estava na cabeça de certas pessoas de uma certa "esquerda" gay. Uma desilusão!
Pelo contrário, se fossem dois machos, de 25-30 anos, musculados, chiques, vestidos com trajes da moda, com aspecto totalmente "mainstream", sem brinco, nem rabo de cavalo, com um discurso de esquerda caviar, festejar tal união, publicamente, já seria aceitável, e deixava de ser uma "macacada".
No caso presente, portanto, os dois homens deviam ter sido discretos e recatados, não fazendo qualquer alarde do seu amor proibido, tal como vem sendo imposto pelo homófobos, mais ou menos tolerantes, que dizem que podemos ter relações, desde que não façamos alarde delas.
Graças a este caso temos a oportunidade de flagrar uma visão estereotipada da sexualidade gay, prejudicada, além disso, por uma percepção (des)humana da realidade. É uma maneira de ver absolutamente condicionada pela divisão social da nossa sociedade, onde se olha para a função, e não para a pessoa, neste caso um artista. Uma visão que, afinal, inesperadamente, tem adeptos bastantes entre nós, mas que tem de ser fortemente criticada .
É uma maneira de ver, cheia de preconceitos, em que expressão "bicha", tão vilipendiada entre nós, aparece por contraposição ao aspecto (normal)izado que se esperaria destes homens, para só assim, tal união merecer ser benzida pelo censor gay .
Uma visão professoral, de classe média, porque o noivo em questão é, "ultra piroso", está fora da classe a que pertence o observador, ou daquela com que com ele se identifica, e, ainda por cima, é uma pessoa "horrorosa", porque é sexagenário, a entrar na terceira idade. Finalmente, uma visão sexista da vida, porque não parece correcto para este entendedor, que alguém dessa idade, fora da idade da procriação, procure ainda realizar-se sexualmente.
Pior ainda, um amor com outro muito homem muito mais jovem, com 50 anos de diferença. E o mais grave de tudo, é dize-lo publicamente, e procurar benção religiosa para tal amor . No fundo, é o espelho da antiga ideia, ainda em vigor na nossa sociedade, de que a sexualidade está reservada só para os homens até certa idade, devendo os mais velhos evita-la, porque nessa idade já é uma vergonha . E se fossem heterossexuais, então achariam correcto? Têm ainda uma visão contraditória do nosso mundo, porque relativamente às paradas gays, os "prides", já os entendem de modo diferentes, pois neste casos, defendem que a visibilidade é muito importante, e as carnavaladas que as acompanham são legitimas, positivas, pois, divulgam, e atraem gente. Entretanto, para outro dos críticos desta União homo, a mediatização do tal evento, com uma mistura religiosa , "não só é grave, como se sente envergonhado com o espectáculo", sic .
Assim, preferem colar-se à posição da Igreja Católica, maioritária e homófoba, cujos ideias condenatórias deste assunto, divulgam alegremente. E desconhecem que noutros países, muitas outras igrejas de várias confissões, praticam estes actos religiosos, publicamente, ou em privado, há muitos anos, para satisfazer as necessidades espirituais dos homossexuais e lésbicas que tem fé. Em suma, tais pensamentos ajudam a manter o condicionamento hetero da opinião pública, e a dos gays e lésbicas, em consequência, e vão no mesmo sentido da ideologia conservadora, demonstrando como estão vivos nas suas cabecinhas os modelos heterosexistas. Contribuem deste modo, para a diminuição do espaço alternativo religioso, demostrando quanto é ainda "condenável ", em Portugal, juntar homossexualidade e fé.
Daqui a algum tempo perceberão, como foram mesquinhos, e periféricos, exactamente, na mesma medida em que este país o é. Por isso, penso que estamos , cada vez mais a precisar de gente nova com outra mentalidade, que tenha uma visão alargada, que ultrapasse as tácticas conspiratórias, de caracter imediatista, com o objectivo exclusivo de levarem água, aos seus moinhos clientelistas.
A comunidade glbt portuguesa, em vagarosa e difícil construção, necessita urgentemente, para arrancar, de visões estratégicas globais, europeistas, mais participadas, e não de pensamento único, ou de visões " pirosas, com mais de setenta anos", viradas para o umbigo, e/ou espartilhadas, por pressões partidárias...
Assim, não vamos lá!
E parabéns, pela parte que me toca, aos corajosos noivos, Alex e Rodrigo, que enfrentaram com dignidade, esta tempestade doméstica, num copo de água! Parabéns! Hoje, sabemos todos que há Uniões de Facto homos, em Portugal!
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António Serzedelo anser@netcabo.pt
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